Amor Romântico

AMOR-ROMÂNTICO---UMA-HISTÓRIA-VENENOSA

AMOR ROMÂNTICO – UMA HISTÓRIA VENENOSA

Michael Vincent Miller um gestaltista americano formado por Fritz Perls, denuncia em sua obra, o que se
pode chamar o Mito do Amor Romântico. Seu convite é para que construamos histórias que se assemelhem mais
às realidades comuns e cotidianas do conflito entre casais. Como seres humanos, necessitamos de histórias
para viver nossas vidas… desde crianças as histórias nos seduzem. Elas dão significado aos desejos, medos,
que nos assombram.
Segundo ele o Mito do Amor Romântico tem suas raízes na nossa necessidade fundamental de dependência.

Quase todas as queixas no meu consultório e provavelmente no de muitos outros terapeutas vem da dificuldade
de se viver o casamento.
As pessoas procuram a terapia por que vivem juntos o sofrimento de não serem capazes de se unirem nem de se
separarem. Vivem uma trama onde o ressentimento e a culpa imperam. Na maior parte das vezes a culpa
substitui o desejo e o papel de amante é trocado pelo de vítima.
Vivem um tipo de relação típica do terrorismo. Em sua busca pelo poder se tornam experts em atacar no ponto
mais vulnerável.
Usam ameaças, alimentam o medo e a dúvida, de forma a paralisar a vontade do seu oponente. Esse terrorismo
íntimo se alimenta dos medos que todos carregamos, desde a infância, de sermos abandonados ou subjugados
pelos pais.
Nessas relações conversar não é mais simplesmente conversar, nem é o sexo primariamente sexo. Cada troca de
palavras sugere um significado diferente do que apresenta na superfície, porque, praticamente, cada coisa
dita entre duas pessoas nesses apuros pode ser utilizada para prolongar a batalha pelo controle do
relacionamento.
Vive-se muitas vezes ainda segundo Vincent Miller o avesso escuro do amor; uma forma de amor negativo entre
duas pessoas que se agarram numa atmosfera de mútua intimidação.
Quando o amor falha em ligar-nos à outra pessoa, a ansiedade pode exercer a mesma função. Amor e ansiedade
são ótimos aliados…
Uma das minhas intervenções que costuma acalmar essas pessoas que chegam aflitas ao consultório é que a
melhor saída não é a separação… elas primeiramente precisam desaprender uma história muito mal contada
que aprenderam que é a tal história do Amor Romântico: que é incondicional… que quem ama adivinha o que o
outro quer, que quem ama quer fazer tudo junto, que quem ama cede e blá, blá…
Sempre digo: se você quer aprender mandarim, não vai entrar em uma escolinha marca barbante. Com a nossa
carreira emocional é a mesma coisa. Para aprender coisas difíceis precisamos contar com bons professores,
nesse caso, com alguém que tem o poder de nos derrotar naquilo que precisamos ser derrotados no que diz
respeito às dificuldades emocionais que trazemos da relação com os nossos primeiros cuidadores. Uma dessas
boas escolas é o casamento. Fugir dele é fugir da escola. Para voltar depois talvez será preciso até
regressar algumas séries porque nem sempre os currículos das escolas são iguais. Vale fugir desse casamento
quando já se aprendeu o que precisa ser aprendido.
As histórias permeadas pelo ideal do amor romântico, que dão um modelo para o casamento, oferecem-nos uma
versão apropriada para uma sociedade fixada na adolescência.
As boas histórias por outro lado, começam com os nossos desejos mais profundos, porém nos deixam com
dúvidas e mistérios. Estas historias insistem em que vivemos em um mundo difícil, cheio de obstáculos que
se opõe a nossos desejos. Essas histórias nos deixam claro que vivemos no tempo, que há decepções, erros,
fracassos ao longo do caminho, e que envelhecemos e morremos. As boas histórias nos contam que não
escolhemos o lugar, a família onde nascemos e, portanto, temos limitações…. Ainda assim, essas histórias
apontam na direção para uma vida plena apesar dos inconvenientes e podem ser fascinantes.
Nossa cultura precisa construir histórias que nos ajudem viver um amor comum no contexto da vida cotidiana.
Conseguir essa façanha de trocar o “eu te amo com loucura” por “eu te amo simplesmente”, ou “eu te amo do
meu jeito“ segundo Vincent Miller pode ser a mais heroica obra de arte.
Tem momentos na vida que a gente se sente mais ou menos assim.
Quando estive desse jeito, passar por um processo terapêutico através de uma abordagem Gestáltica fez toda
a diferença…
A Ressensibilização é o objetivo da Gestalt-terapia…
Fritz usava muito como mote: “perca a cabeça e recobre seus sentidos “… O ambiente que ele encontrou na
sociedade americana da época era de gente intelectualizada, mas emocionalmente bloqueada… referiu-se
várias vezes a essas pessoas como “cadáveres ambulantes.”

Yara Gualda Carneiro
(Música SOCORRO com Arnaldo Antunes: https://youtu.be/VDz879eNKNA)