Como Cheguei à Gestalt Terapia

COMO CHEGUEI À GESTALT TERAPIA

Yara Gualda Carneiro

O que é o Instituto de Gestalt de Curitiba (IGC)
O Instituto de Gestalt de Curitiba nasceu de uma necessidade pessoal de compartilhar com outros profissionais da Psicologia e áreas afins, o que recebi numa caminhada de mais de trinta anos buscando recursos para minha vida pessoal e também para o desempenho da profissão de terapeuta. Parte muito importante da minha formação se deve ao que aprendi no COPSI (Colégio de Especialidades Psicoterapêuticas – www.copsi.com.mx) na cidade do México, onde tive contato com a GESTALT TERAPIA.

Saí da Universidade em 1977 com uma visão marcada pelo pensamento da época, o da “neutralidade científica”. Tive meu primeiro emprego em uma Instituição que cuidava de crianças abandonadas pelos pais. O choque entre o que “deveria ser” como psicóloga e o que intuía que as crianças demandavam de mim, simplesmente me paralisava. Ali não existia o lugar para a terapeuta no formato que tinha aprendido. Éramos as “tias”. Uma esperança de um pouco de atenção e carinho num mundo de muitas carências.

Nos muitos encontros e congressos que participei – nos quais se buscavam soluções técnicas para a habilitação dessas crianças – me chamava a atenção que os melhores resultados eram obtidos por profissionais que corajosamente se envolviam, que viam no que faziam mais que uma profissão, mas sua missão.

Lembro-me de um rapaz, na época presidente de uma associação dos ex-alunos da FEBEM, que me relatou como conseguiu se recuperar. Contou-me que uma de suas professoras não se importou com a norma vigente do não envolvimento e insistiu em dar-lhe uma atenção diferenciada. Este cuidado precipitou a jornada que devolveu-lhe parte da auto-estima necessária para suportar o abandono que havia sofrido.

Passados 20 anos desse tempo, já mergulhada dentro da Gestalt, ao participar de um Workshop com Zinker (um dos grandes teóricos da Gestalt, contemporâneo de Fritz Perls) no Instituto de Gestalt de São Paulo, ouvi de uma jovem psicóloga – que estava trabalhando em uma instituição parecida com a que eu trabalhava quando me formei – um relato que deixava transparecer a mesma agonia que eu sentia naqueles tempos.

Ela falava da limitação ao trabalhar com crianças que não tinham as referências que se espera encontrar em pais saudáveis. Eram crianças que já tinham perdido qualquer referência de família. Zinker, com a sabedoria e autoridade própria de quem já sabe cuidar da dor disse a ela: “talvez você seja para essa criança, nesse momento, a única família que ela vai ter”.

Sua intervenção me encantou e confirmou muito o que já estava em meu coração. Para ser terapeuta, antes de qualquer qualificação, você precisa ser gente. Gente que sente, vibra, torce, se emociona, chora, se alegra e se envolve (não conflui) com o outro. O outro que por um acaso, nesse momento, é seu “paciente ou cliente”.

É uma caminhada que exige conhecimentos técnicos, pois sem eles somos apenas diletantes, mas sobretudo, uma travessia que nos devolve a nós mesmos para possibilitar o encontro com o outro. Nesse tipo de relação, o preço mais barato é o que se paga com o dinheiro.

Vínculos curam! Se por alguns vínculos adoecemos, por outros nos curamos.

Fritz Perls, em seu livro “Escarafunchando Fritz”, comenta sobre sua amante Marty, “Você me amava e me admirava como terapeuta e, ao mesmo tempo, tornou-se a minha terapeuta, destroçando com sua cruel honestidade a minha falsidão, falatórios e manipulações”.

É outro paradigma que soa como música agradável aos meus ouvidos. Este modelo psicoterapêutico lembra as relações que curaram bem antes que os primeiros escritos de Freud aparecessem em 1895.

Relações de profetas, mestres e discípulos, relações de pessoas que encontravam tempo para se construírem. Vínculos que, na visão de Martin Buber, confirmam num encontro entre PESSOAS.