Conferência Abordagem Gestáltica

Conferência-Abordagem-Gestáltica

CONFERÊNCIA DE ABERTURA DO II ENCONTRO CURITIBANO DA ABORDAGEM GESTÁLTICA

 

Bom… Quando pensamos em dar um nome a esse Encontro fomos pensando em palavras, conceitos que estão
presentes na literatura Gestáltica. Pensamos Figura, Fundo, Contato, Polaridades, Fronteira, Centro…
FLUIR… Ficamos com FLUIR…
Era o auge da Lava-jato, também o começo ou meio de uma crise politica sem precedentes com previsões
catastróficas para a Economia, para o nosso modelo de governo.
Internacionalmente a loucura do Terrorismo do Estado Islâmico, a pior crise migratória… enfim… tempos
difíceis, nebulosos, adversos… veio a palavra ADVERSIDADE.
O tema veio como uma provocação… FLUINDO NA ADVERSIDADE… É possível fluir?? Como fluir na adversidade?
Pode-se não fluir? Ou como e quando não fluímos?
Bom… se falar de Gestalt já é difícil em um espaço curto de tempo me vi em palpos de aranha para falar de
Gestalt a partir desse tema.
O não fluir só existe quando temos uma ideia do que seria o Fluir. Não ficamos com o que é…. buscamos o
que deveria ser…
A Gestalt tem muito a ver com isso:
Um dos textos mais populares da Gestalt propõe: as coisas são o que são…. começa assim: uma rosa é uma
rosa…. não é cravo… nem lírio… e continua ” eu sou eu, você é você…”
Uma das coisas que a Gestalt terapia busca é dar o nome certo para as coisas.
Raiva é raiva… medo é medo… (não interessa para quem esteja dirigido esses sentimentos)
A gente foge das coisas que achamos feio ser ou viver, mesmo que estejamos sendo ou vivendo.
Quando então não fluímos? Não fluímos quando racionalmente já temos um modelo internalizado de como
deveríamos fluir….

As crenças familiares, os mitos antigos, modernos, as exigências explícitas ou invisíveis vão formatando um
jeito certo de como deveríamos fluir… impõe o que Fritz chamou de DEVERISMOS… (Ele falou desse processo
como parte do que chamava a produção do INTELECTO).
As histórias, os mitos servem ao nosso desejo de controle do medo do abandono ou disfarçam desejos não
aceitáveis. As crianças têm fascínio por ver historias muitas vezes. Elas gostam de saber o que vai
acontecer… lhes dá prazer saber o que vai acontecer,
De forma geral queremos os filmes que tem mamãe, papai, filhinho, cachorrinho e final feliz…Holywood sabe
disso e se enriquece oferecendo as historias previsíveis e açucaradas. Essas são as historias tóxicas, as
enlouquecedoras, as que oferecem figurinos apertados demais…e como é próprio do humano dar significado às
suas experiências quando isso não acontece nos desequilibramos… adoecemos…
A prática clínica, e até mesmo a sabedoria de ter vivido bastante tem me mostrado algo incomodo…
A vida não é lógica, nem justa, o sofrimento existe…”A vida não é violino e rosas” dizia Fritz… nem
sempre as histórias que conhecemos comportam nossas experiências…
Abusos sexuais existem quando a criança nem sabe falar, por pessoas que logicamente deveriam cuidar delas,
tragédias existem e são provocadas por pessoas que logicamente deveriam ter sido escolhidas com o preparo
de evita-las (tragédia Mariana) … mortes… câncer em bebês… crueldade, sequestros… Coisas ruins
acontecem para pessoas boas e coisas boas para pessoas ruins…. Há uma inevitabilidade que não damos
conta. Isso não cabe nem dentro da lógica nem dentro da Justiça. A justiça não é parte da natureza… ela
foi inventada pelos homens (com certeza a filosofia dá conta desse tema)
Quando as lógicas justiças não estão presentes e as histórias não se concretizam, do mesmo jeito que os
filhos se sentem culpados pelo caos na família, também na vida vamos buscando uma forma de entender o que
não deu certo através da linguagem que sabemos que é o pensamento lógico.
Para esse método funcionar, o de pensar logicamente, ou a equação fechar inventamos por um lado a CULPA, e
olhamos para trás, e por outro o FUTURO DO QUE NÃO FOI e “futureamos” de forma ilusória… nos deverias…
nos SEs SE SE SE..,
Pensamos de uma maneira infantil, que resolver a equação acaba por resolver o problema.
Esses subterfúgios resolvem linguisticamente a equação mas aumentam ou mantém o desconforto interno.
(e se tivesse sido mais cuidadosa…, se não fosse tão promíscuo…, se não tivesse bebido tanto…, se ele
fosse o príncipe… ou pior, que não fui a cinderela…, entrei na vida dele pelo aplicativo…, pus uma
foto de quando era magra…)
O gostaria, o deveria, o poderia, são construções mentais que servem mais para nos torturar do que para nos
dar esperança. Fritz Perls chamou isso de “cocô de cavalo”…, justificar, explicar… tentar entender.

Fritz Perls usou toda sua genialidade e criatividade para frustrar nas pessoas o pensamento lógico como uma
maneira de acessar eventos psicológicos. Ele se referiu varias vezes com desprezo ao intelecto e nesse
sentido falava do pensamento lógico. Ele de uma forma provocadora afirmava: “O Intelecto é a prostituta da
Inteligência.”
Ele se deu conta de que eventos psicológicos estavam codificados em uma linguagem que não eram acessados
pelo pensamento lógico. Usando a metáfora do computador, para abrir esses arquivos ele inventou o jeito de
fazer terapia que ele chamou de Gestalt terapia.
-Reviver falando na primeira pessoa no tempo presente (monodrama)
-Trazer para a cadeira vazia
-Lamentar… chorar… chutar… exprimir emoções que foram proibidas…. em um ambiente seguro
-Criar um repertorio de novas habilidades
-Falar o que é infalável
Eu posso dizer quem eu era e quem eu sou depois da Gestalt…
Insistindo em frustrar o hábito de olhar para trás quando uma pessoa se julga como seria se… não tivesse
bebido tanto, se não tivesse abandonado o marido, brigado com o chefe.. , tenho perguntado: quantas
situações você já efetivamente mudou por ficar remoendo o que não fez e que deveria ter feito? Tenho
brincado com alguns pacientes dizendo: você bateu na porta de Deus e escolheu essa cidade, esse pai, essa
mãe, essas pessoas para viverem com você?
Erving Goffman, sociólogo americano afirma: O que o indivíduo é para si mesmo não é algo que ele inventou.
Tenho ensinado Gestalt desde 2004. Sei da dificuldade de se adentrar aos conceitos gestálticos por
estarmos totalmente atrelados, viciados no pensamento lógico.
Vivemos um tempo em que se prega tanta liberdade, temos descoberto tanto sobre o mistério do funcionamento
cerebral e nos escravizamos com o mito de que “todos os sonhos serão realizados… só depende de nós… do
nosso desejo…”
Isso não é verdade!!! TEMOS LIMITAÇÕES!!!!!!!.
Talvez seja menos doloroso e efetivo pensar essas questões a partir do velho DESTINO, embora parece que
saiu de moda falar dele.
Quando podemos fluir….
Quando construirmos as nossas historias…. que não precisam ser feias ou bonitas… são histórias… a
minha história…
Histórias saudáveis nos dizem que nunca podemos saber tudo o que queremos saber. Não podemos nos banhar no
mesmo rio duas vezes.
Só o que sabemos e talvez tudo o que podemos saber, é nossa experiência real.
Histórias boas espelham nossos desejos mais profundos, porém nos deixam com dúvidas e mistérios. Elas
contam que vivemos em um mundo difícil, cheio de obstáculos que se opõe a nossos desejos e vontades. Deixam
claro que vivemos no tempo, que há decepções, erros, fracasso ao longo do caminho, que adoecemos,
envelhecemos e morremos. Estas histórias chegam mais perto da verdade, e a gente sabe que a alma só sossega
com a verdade.
Quem é do meio gestáltico certamente já ouviu falar de um livro chamado NÃO APRESSE O RIO. A autora quando
entrevistada conta que esse título vem de uma citação zen, “Não Apresse o Rio, ele corre sozinho”. Ela
explica: Não apressar o rio para mim, significa deixar-se ir junto com a vida, sem tentar faze-la ir para
algum lugar, sem tentar fazer com que algo aconteça, mas simplesmente ir, como o rio; e, sabe, o rio,
quando chega nas pedras, simplesmente se desvia, dá a volta; quando chega a um lugar plano, ele se espalha
e fica tranquilo, simplesmente vai se movendo junto com a situação em torno, qualquer que seja ela. Ficou
claro para você o que isso significa há muita gente que ganha a vida e passa a maior parte dela no rio, e
para essa gente o título tem muito significado porque precisam acompanhar o rio, ou então se metem em
apuros. Se o rio os leva desta maneira em águas agitadas, não adianta tentar escapar daquela maneira – eles
precisam ir junto, e por isso o título significa tanto. Ela diz: COM MUITO EGO É IMPOSSÍVEL FAZER ISSO…
Tomo a liberdade de traduzi-la dizendo: com muitas histórias introjetadas, pensando logicamente é muito
difícil FLUIR.
Fazer Gestalt terapia para mim é desmanchar o mito da casinha feliz; do amor romântico, do felizes para
sempre…
É abrir mão das idealizações…
Das crenças…
De que o esforçado sempre chega…
De que o melhor sempre ganha…
De que o competente fica…
Fazer Gestalt terapia para mim é promover prontidão através da Ressensibilização, ficar com o possível é
criar prontidão para viver o aqui e agora.Quando comecei escrever me veio a musica do Chico Buarque que já
cantei muito, sem ter me dado conta desse viés que é tão gestáltico…
NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO (a precisão cientifica do instrumento). Para navegar posso contar
com a precisão dos instrumentos concebidos pelo avanço da ciência.
O avanço da ciência não me garante nada para viver o que não conheço. Viver não é fácil e é tão estimulante
que não suportamos a possibilidade de não viver.
Yara Gualda Carneiro
Junho/2016