Criança Interior

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CRIANÇA INTERIOR E GESTALT-TERAPIA

Cada vez mais ouvimos falar da “criança interior” em muitas abordagens diferentes da psicologia.
Esse conceito de “criança interior” nasce nos anos 60 tendo suas origens nos trabalhos de JUNG. Não somos
monolíticos. Somos vários sub-eus. Em cada um de nós está contida uma multiplicidade de influências
internas, dentre as quais, a criança e a infância, são as mais imediatas e importantes. Jung descreveu
muitas figuras arquetípicas- a mãe, o pai, a criança, o herói, o vilão, o tentador, o trapaceiro e assim
por diante. Para ele, o arquétipo da “criança interior ” é muito mais que um conceito ou teoria. É uma
força viva que ajuda a guiar e sustentar a personalidade adulta.
A “Criança Interior” é um estado “arqueopsíquico” herdado da infância. Contém uma complexa organização de
pensamentos, emoções, comportamentos unidos entres si por uma coerência interna que segue sua própria
lógica, geralmente incompreensível para uma mente adulta, já que é elaborada em termos intuitivos e não
segundo a compreensão regida por um sentido de realidade, tal como os adultos a entendemos do ponto de
vista lógico.
Trata-se de uma trama cognitiva que constitui um mapa complexo inscrito no script de sua vida.
Eric Berne populariza esse conceito através da Análise Transacional.
Nos anos 80 Alice Miller uma psicanalista alemã vai se distanciando da psicanálise clássica e se torna uma
das porta-vozes mais importantes no sentido de denunciar os abusos cometidos na infância pelos principais
cuidadores da criança. São muitas suas obras: “O Drama da Criança Bem Dotada”, “Nāo Perceberás” “A Verdade
Liberta”…
Como a Gestalt trata esse tema? Na verdade Fritz não falou da Criança Interior.
Sua teoria nos ensina a tratar com “situações inacabadas”, “experiências obsoletas”, “introjetos”, que na
verdade é a forma como se apresenta esse material “arqueopsíquico” herdado da infância.
Os eventos psicológicos nāo ficam registrados de forma lógica em nossa memória. Estão codificados em uma
linguagem típica dos eventos psicológicos primários descritos por Freud como o sonho, a fantasia, os
sintomas.
A proposta da Gestalt-terapia é integrar as informações vindas dessas fontes acima, das percepções,
sensações, imagens, perdidas para a consciência pelo seu desconforto, com um discurso apropriado e recursos
adquiridos durante sua vida que dê condições para o adulto hoje construir sua história de uma maneira onde
se sinta mais dono de seu destino, ou melhor reconhecendo-se em suas escolhas. Seria dito de outra forma,
substituir o vazio de informações inconscientes por um mais consciente que possibilita mais arbítrio por
parte do sujeito, diferente de ser levado por forças e vozes nem sempre identificadas. É comum no
consultório as pessoas não entenderem como chegaram aonde estão. Como seguiram tal profissão, como casaram
com a pessoa que estão, porque tiveram ou não tiveram filhos… Sentem-se muitas vezes usando uma metáfora
um pouco forte, como bois que faziam parte da boiada que seguia o grupo de cabeça baixa só indo pelo
caminho indicado pela manada.
Em uma linguagem bem Gestáltica seria viver o “aqui e agora” com todas as possibilidades do hoje e não mais
o “lá e então” com suas limitações.
Trabalhamos com sonhos, cadeira-vazia, monodrama e muitas outras técnicas e sobretudo com o cuidado de
frustrar o discurso lógico produzido inconscientemente para nos afastar de nossas dores primárias. Fritz
costumava dizer que é necessário enfrentar a dor para nos tirar do sofrimento.
O que é o “aqui e agora” tão falado em Gestalt?
Tenho visto algumas vezes um torcer de nariz quando falamos de Gestalt, com a alegação de que que é uma
terapia superficial, que se preocupa só com os problemas atuais.
Para aclarar um pouco essa ideia do que é o “aqui e agora” vale a pena decifrar um conceito básico da
Gestalt que tem muito a ver com o “aqui e agora”.
No pensamento de Fritz é comum encontrarmos referência ao conceito de responsabilidade.
Uma maneira de entendermos melhor a que se referia Fritz quando usava essa palavra, é importante dividir a
palavra responsabilidade em inglês: response-ability – habilidade ou capacidade de responder.
O trabalho Gestáltico busca capacitar boas respostas ou respostas funcionais às circunstâncias que vive a
pessoa, busca habilitar boas respostas.
O que seria então as respostas funcionais ou saudáveis e as respostas disfuncionais ou neuróticas?
Ainda bem dentro do jargão gestáltico, as boas respostas são aquelas que atendem necessidades atuais, do
“aqui e agora”.
Embora vivamos todos regidos pelo mesmo calendário, nem sempre o que entendemos como nossas necessidades
tem a ver com a nossa idade e o dia do ano em que estamos.
Lembro de uma paciente que se condenava por não trabalhar fora e ao mesmo tempo não se autorizava a ter uma
atividade profissional, ainda que fosse preparada o suficiente para isso.
Durante seu processo psicoterapêutico se deu conta de que tinha receio de que se saísse de casa os filhos
não teriam seus pertences em ordem se os necessitassem.
Lembrou que sua casa quando era menina era muito desorganizada. Sua mãe trabalhava tempo integral e lhe
dava vergonha levar seus amigos em casa pela desordem.
Hoje ao manter sua casa organizada e com tudo em ordem embora os filhos já possam se organizar, pois são
adultos, exibe uma resposta desatualizada (não ter uma atividade profissional) e vive a frustração de não
desenvolver seu lado profissional.
Atende a um “lá e então…. ” atende à necessidade da menina que ela foi um dia, a necessidade de ter uma
mãe que a acompanhasse em sua rotina.
Esse é um exemplo simples de como vamos gastando nossa energia em atividades que não geram satisfação pois
atende a necessidades que não são claras para nossa consciência.
Tratar essa situação implica em pôr atenção na queixa atual e necessariamente reprocessar a situação que
ficou mal resolvida no passado.
A Gestalt então, longe de ser superficial, é extremamente competente para tirar o indivíduo do
funcionamento neurótico, entendendo que os processos que se apresentam hoje só são ponta do iceberg que
necessita ser desvelado.

Yara Gualda Carneiro